sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

novas tecnologias da construção civil



As novidades da construção
Revestimentos em vinil, canos flexíveis e outrosmateriais promovem a maior mudança na engenhariacivil brasileira desde o início do século
Ricardo Galuppo
Ilustração Pictografia
1. Os novos pisos sintéticos imitam o mármore e a madeira. São duráveis e fáceis de limpar
2. Os novos rodapés vêm com a fiação embutida, o que facilita a instalação do sistema elétrico
3. As portas chegam à obra prontas, já com batentes, dobradiças e fechaduras. O tempo de colocação é menor
4. Sob a laje, em vez do forro padrão, o de gesso cartonado pode ser montado em um terço do tempo
5. Os canos do banheiro são flexíveis e, em caso de reparo, podem ser trocados com facilidade
As paredes em gesso cartonado são ocas. Isso facilita a instalação dos canos de água e esgoto e da rede elétrica
Quem pensa em construir uma casa ou reformar o apartamento deve ficar atento a novos materiais e processos que chegaram ao Brasil e estão ajudando a diminuir o custo e reduzir o tempo da obra. Utilizados no exterior há mais de duas décadas, esses produtos ainda são pouco conhecidos por aqui e representam a maior inovação na construção civil brasileira desde que o uso do concreto armado começou a ser difundido, no início deste século. As paredes de uma casa, que sempre foram de tijolos, podem ser feitas de placas de gesso resistente, aparafusadas numa armação metálica. Os cabos de eletricidade e telefonia já chegam à construção na medida que precisam ter e as tomadas já vêm embutidas no rodapé. O sistema hidráulico, feito de tubos plásticos flexíveis, é de manutenção facílima. Em caso de vazamento, basta desenroscar as conexões, puxar o cano danificado e substituí-lo por um novo. Exatamente como acontece com as lâmpadas queimadas. Às vezes o material nem é novidade, mas sua moderna apresentação oferece mais racionalidade à construção. É o caso das portas que chegam montadas à obra, com batente, dobradiças e fechadura, e cada uma delas é instalada em meia hora de trabalho, no máximo. No sistema convencional, os elementos das portas são comercializados em separado e o serviço de instalação consome pelo menos quatro horas de trabalho.
Os novos materiais ou processos de construção chegaram ao Brasil trazidos por construtoras de apartamentos interessadas em reduzir o custo de suas obras. Hoje, muitos desses produtos já são fabricados no país e a maioria deles, mesmo os importados, já está à disposição de qualquer pessoa. Ainda é raro encontrá-los nas grandes lojas de materiais de construção, mas todo escritório de arquitetura e de engenharia dispõe de catálogos com informações detalhadas sobre os novos sistemas e endereços dos representantes das empresas que os produzem. "O sistema de construção mais comum no Brasil ainda é artesanal", diz o engenheiro Luiz Henrique Ceotto, diretor de construções da empresa de engenharia Inpar, de São Paulo. "Com os materiais convencionais, é difícil conseguir uniformidade e alcançar a mesma qualidade que os novos produtos possibilitam." Isso, diz Ceotto, vale tanto para grandes edifícios quanto para as casas.
As paredes externas são cobertas por uma tela plástica impermeável. Sobre ela é aplicada massa acrílica
O uso dos novos materiais permite que a obra fique pronta em menos tempo e, o que é melhor, pese menos no bolso de quem banca a construção. A vantagem financeira nem sempre é evidente na hora em que se comparam, por exemplo, os preços dos tijolos, do cimento e da areia para uma parede convencional com os das placas de gesso cartonado e da estrutura metálica utilizada nas divisões internas de uma casa construída pelo novo sistema. Apenas pelo que custam os materiais, os novos normalmente são mais caros. A diferença é percebida na hora em que se calculam os custos da mão-de-obra e as despesas de administração da construção. Considerando esses aspectos, o preço final de uma obra em que se utilizam os novos materiais pode ficar de 15% a 20% menor em relação ao de uma construção convencional. Esses porcentuais variam de acordo com o preço da mão-de-obra em cada cidade e o valor do frete dos produtos até o canteiro. Por isso, é bom fazer as contas antes de optar por eles. O trabalho com a administração, em qualquer que seja o local da construção, será sempre menor.
Quem já construiu talvez não tenha levado em conta que apenas a instalação das portas da casa, pelo sistema convencional, exigiu quinze diferentes decisões de compra. Foi preciso escolher a própria porta, as fechaduras e as dobradiças. Foi necessário ir atrás do verniz, das lixas, dos parafusos, dos pregos e assim por diante. No sistema de construção convencional, o comum é procurar cada um dos componentes necessários para montar as portas, o sistema elétrico ou o piso e depois juntar tudo na obra. Muitas vezes, compra-se muito mais do que o necessário. Quem se der ao trabalho de, por exemplo, emendar todas as pontas dos fios que sobram no final da instalação perceberá que elas seriam suficientes para fazer a rede elétrica de uma sala inteira. Na parte hidráulica, o desperdício de tempo e de materiais é ainda mais evidente. A instalação dos canos de água e de esgoto exige que se abram buracos em paredes praticamente prontas e o destino dos pedaços de tijolos quebrados com essa finalidade é o lixo. Depois de assentados os canos, a abertura é novamente coberta com argamassa. Ou seja, naquele ponto, a parede praticamente precisou ser feita duas vezes. Mais: se no futuro houver um vazamento, tudo o que foi feito terá de ser mais uma vez destruído. "O desperdício de material numa obra convencional é enorme", diz a arquiteta Cristina Shahini, de São Paulo, que tem recomendado aos seus clientes o uso dos novos materiais. Esses procedimentos tradicionais, e por que não irracionais, mais as condições inadequadas de transporte e de armazenagem fazem com que pelo menos 20% de todo o material de construção comprado para a obra seja desperdiçado. Com os novos materiais, compra-se exatamente o que será gasto.
Para as paredes internas, há uma cobertura em vinil que substitui os azulejos, na cozinha e no banheiro, e a pintura, nos outros cômodos
"Os novos materiais exigem projetos mais detalhados e precisos", diz Ricardo Julião, dono de um dos maiores escritórios de arquitetura de São Paulo. "Mas o resultado final é uma obra mais limpa e de manutenção mais fácil." A necessidade de precisão é maior porque, como os materiais são padronizados, as medidas dos cômodos da casa precisam ser exatas. As placas de gesso cartonado para paredes, por exemplo, têm medidas fixas. As mais comuns têm 1,60 metro de largura por 2,40 metros de altura. Se a pessoa desejar cômodos com pé-direito mais elevado, terá outras alternativas de altura. Esse tipo de padronização não faz com que os projetos sejam repetitivos, como nas casas pré-fabricadas. As paredes irregulares do Museu Guggenheim, na cidade espanhola de Bilbao, por exemplo, foram construídas com placas de gesso cartonado. "A vantagem desse tipo de parede é a economia de tempo na construção e as facilidades para a instalação das redes hidráulica e elétrica", diz Nilton Antonialli, diretor da Placo, que fabrica esse tipo de parede no Brasil. O primeiro passo para erguer uma parede por esse sistema é a montagem da estrutura metálica, de aço galvanizado. Em seguida, as placas são parafusadas na estrutura. Como o espaço entre as duas faces é oco (veja quadro), os encanamentos da rede hidráulica e os tubos por onde passarão os fios da rede elétrica podem ser instalados entre elas. Mais tarde, se houver vazamento, é só tirar a placa e fazer o reparo, sem a necessidade de quebrar nada. (Para melhorar o isolamento acústico, o espaço entre as faces da parede podem ser preenchidos com lã de vidro.) Outra diferença importante é o peso. Um metro quadrado da parede construída por esse sistema pesa 25 quilos. Uma parede convencional, de alvenaria, pesa dez vezes mais, 250 quilos. Quem quiser, por exemplo, redividir o apartamento, pode utilizar esse tipo de parede sem o risco de comprometer a estrutura do prédio.
A facilidade de instalação, um dos principais atrativos do sistema, não se resume às paredes. As portas prontas Multidoor, produzidas pela empresa Pimentel Lopes, de Maceió, eliminam muitas das etapas obrigatórias numa obra convencional. A única exigência é que os vãos nas paredes tenham dimensões compatíveis com as portas. Depois que as paredes já estão pintadas e o piso instalado, um funcionário treinado pela empresa fixa a porta na parede com uma espuma de poliuretano (o sistema dispensa que o marco da porta seja chumbado com argamassa ou parafusado na parede). "O trabalho que o marceneiro normalmente faz na obra é realizado pela empresa, na fábrica", diz o engenheiro Roberto Pimentel, diretor comercial da Pimentel Lopes. Os novos materiais, de um modo geral, tiram do canteiro de obras uma série de procedimentos e permitem um melhor planejamento das despesas. No caso das portas, por exemplo, os gastos que eram distribuídos durante toda a obra podem ser feitos de uma só vez, na reta final da construção.
Fraqueza só na aparência
Os novos materiais já estão disponíveis no mercado, mas alguns problemas ainda impedem que seu uso se torne mais difundido no Brasil, tanto na construção de casas quanto de edifícios. Um desses obstáculos, talvez o maior, é de natureza cultural. Quem bater com os nós dos dedos numa parede de gesso cartonado perceberá que ela é oca. O som dos passos sobre os pisos sintéticos que imitam madeira e mármore é diferente do barulho que se escuta ao caminhar sobre o material natural. Mesmo sendo mais resistentes, os tubos flexíveis do sistema hidráulico são muito diferentes dos modelos tradicionais, de cobre e de PVC. Muita gente tem a impressão equivocada de que os novos materiais são mais fracos.
Outra dificuldade para a introdução das novas técnicas está relacionada ao grau de detalhamento que esses projetos exigem. Os engenheiros e arquitetos brasileiros geralmente aprendem na escola a construir de acordo com o padrão convencional. "Poucas universidades se preocupam em preparar seus alunos para os avanços que a construção civil terá de passar no Brasil", diz o arquiteto Tomás Bulanga, de São Paulo. Além disso, muitas empresas de engenharia não se interessam em treinar profissionais. Pode demorar algum tempo, mas tudo indica que a mudança veio para ficar. "À medida que estiverem claras as vantagens que os novos materiais oferecem, as pessoas passarão a procurá-los."

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